Algum escritor me ajude a terminar de escrever este conto. Eu o iniciei em 2010 e desde lá ainda não finalizei o enredo, por favor, ficaria grato caso alguém entrasse em contato comigo.
O Louco e o Engraxate
A praça
estava cheia de pombos e pássaros atraídos pelos grãos de alpistes ou quaisquer
que jogavam no chão, roupas de glamour naquele início de século XX enfeitavam o
lugar com arquiteturas européias.
Senhoras
simpáticas distribuíam pipocas e outras guloseimas para os pombos mais próximos
a escada que subia para a catedral. Sempre era de costume observar a praça da
enorme igreja rodeada por essas aves, porém sempre havia um sujeito que os
espantava. Chateadas, as senhoras e crianças se afastavam, pois a única
diversão dos finais de tarde eram os pombos famintos que aguardavam ansiosos a
chegada das pessoas para se alimentarem dos alpistes que jogavam as aves.
Todos os
dias um homem vinha e espantava os pássaros, acabava com a diversão de velhos e
crianças, mas todos tinham o homem como um louco mesmo com suas características
de mendigo, alguém anormal que simplesmente era como os outros varridos de rua.
Os pássaros não podiam pousar final da tarde que o louco corria em direção a
estes e espantava-os. Indignados, pessoas que se distraiam alimentando os
pombos não visitaram mais o lugar. O louco era insuportável com sua teimosia em
afugentar os pombos.
- Malditos
pombos, não passam de pessoas folgadas, querem se saciar a custa dos piores que
vocês, saiam daqui seus preguiçosos e vão viver do que vocês acharem e não do
que derem a vocês. Dizia o louco.
Muitas
pessoas não entendiam tal ação do sujeito louco.
- Aquele
descarado perturbado mental continua espantando os bichinhos, quando ele vai
parar com isso? Todo o dia ele espera o final da tarde quando estamos todos se
distraindo com a alegria dos pombos, então ele vem e espanta os coitados com
aquela vara que segura sempre pra agredir os pássaros. Gostaria que os guardas
prendessem esse desmiolado ou o manicômio pudesse vir e tira-lo à camisa de
força para as pessoas terem sossego alimentando os pombos. Dizia uma senhora
furiosa.
Todos os
dias era sempre o mesmo ato. As pessoas se aproximavam da praça ou os que
estavam na igreja se achegavam no lugar para apreciar as aves e o louco vinha
para fazer os pombos voarem. Ninguém o impedia e sempre os seus dizeres eram os
mesmos, porém, um menino de sete anos que fazia serviços de engraxate na praça
observava dia-a-dia o homem louco que espantava os pássaros conversar sozinho
antes de espantar os pombos. Ele se sentava a beira de uma árvore a qual ficava
na lateral da praça e começava a rir e discutir com ninguém, coisas tipo – As
pessoas acham que eu sou louco fazendo isso amigo, você quer mesmo que eu continue
a passar por momentos tão humilhantes assim? Por que tenho que continuar?
Percebi que não são tão ruins assim.
Tito
conhecido como “O Engraxate da Praça”, não era medroso. Criado sendo menino de
rua era acostumado a enfrentar os valentões que cruzavam por seu caminho, as
tempestades fortes, as noites frias sem lar, fome e dentre outros eram
enfrentados por uma criança que ganhava a vida engraxando sapatos de senhores
que passavam pela praça da catedral. Era também muito curioso, enquanto seus
amiguinhos de rua caçoavam e debochavam do louco que assustava os pombos ele
pensava em qual motivo aquele homem seria louco, com quem será que ele
conversava? Por que ele assustava os pombos? Um dia ele mataria sua curiosidade
infantil perguntando para o tal louco.
Certa tarde
quando as pessoas se ajuntavam para alimentar os pássaros novamente o louco se
aproximou do lugar, mas agora se aproximava correndo com uma tocha acessa a fim
de queimar as aves do local. Foi um desespero total. Pessoas corriam de um lado
para o outro com medo de serem queimadas, gritos por todo lado, berros de
crianças em carrinhos de bebe, senhoras levantando seus vestidos e saindo da
confusão, poeira misturada com fumaça e Tito parado no meio da confusão apenas
olhando para o louco que corria atrás dos pombos com uma tocha que nem fogo
mais acendia.
Com coragem
em meio a tanto tumulto Tito se aproximou do homem louco:
- Ei, ei,
moço, eu não tenho medo do Senhor, pode dar atenção para mim? Disse Tito.
O louco o
observou com certa ferocidade nos olhos e jogou a tocha que acendia. Com um
gesto delicado o homem abaixou a cabeça e assentou-se no chão delicadamente, o
menino percebendo que o louco já estava calmo ofereceu um pedaço de pão ao
homem que por sua barriga encolhida e corpo magro demonstravam a fome que
imperava.
- O senhor
estava com fome mesmo, está devorando o pão sem mastigar, quer mais? Perguntou
o engraxate.
- O homem
não respondeu, apenas continuou com sua cabeça baixa e suas pernas cruzadas no
chão. Tito não esperou mais e ousou perguntar:
- Por que o
senhor faz essas coisas? Por que você odeia os pombos? Com quem conversa antes
de vir à praça?
Continuou o
louco no seu silêncio, Tito estava ansioso para saciar sua curiosidade e
continuou a repetir suas perguntas, começou a balançar o ombro do louco e este
não dizia nada, o silêncio era tudo que o menino continuava a escutar. Certo
momento Tito balançou o braço do louco mais forte e neste impreciso momento o
louco reage gritando:
- Por
que...
- O menino
sai correndo nervoso e o louco logo começa a rir e chama por Tito:
- Ei filho
que isso, por que está correndo? Aproxime-se.
Andando
devagar meio desconfiado e nervoso Tito foi se aproximando do louco.
- Não tenha
medo menino, venha, estou muito agradecido por você me dar comida, não serei
tão injusto, admiro muito sua coragem, não é como os outros meninos,
aproxime-se e falarei tudo o que quiser.
Tito se
surpreendeu que o louco não agisse mais como alguém anormal, será que ele
fingia?
- O senhor
está normal agora, não é mais louco como antes, o que foi que aconteceu? Você
se finge de louco ou está me confundindo?
- Oh menino
curioso! Calma tudo no seu tempo, para início de conversa eu sou louco sim,
assumo minha loucura, não sou normal garotinho, mas não faço mal a ninguém,
quero dizer, somente aos pombos porque são asquerosos e repugnantes, não gosto
deles, malditas aves, respondia o louco em tom reclamante ao falar dos pombos.
- Puxa!
Como o senhor detesta pombos, não quero muito saber o motivo de não gostar
deles, quero entender por que o senhor conversa sozinho? Eu queria saber isso,
todos os loucos são assim?
O louco riu
e se levantou do chão e disse:
- Se eu lhe
contar um segredo você não diz a ninguém?
- Promessa
de homem leal quer dizer de menino leal, respondeu Tito.
- Tudo bem
menino, eu contarei a você. Quero lhe apresentar duas pessoas.
O garoto
começou a perceber que o homem não tinha mais reação de louco e que mesmo este sendo
do jeito que era, demonstrava segurança.
A curiosidade do engraxate aumentava mais
quando seguia o louco por levá-lo a quem iria lhe apresentar, percorreram toda
a praça, subiram os enormes degraus da catedral, ao chegarem dentro da igreja,
ainda subiram para a torre e nesta andança Tito já estava cansado de andar e
perguntar quem eram as pessoas e o louco sempre dizendo – Você saberá.
Finalmente
chegaram à torre escura e meio tenebrosa, os sinos eram grandes e enferrujados,
teias de aranha e poeira cobriam o lugar, pombos não existiam somente os mortos
que o louco matava, Tito observou ratos no canto, isso não lhe provocou medo,
porém o lugar obscuro fazia o menino tremer, afinal, para alguém de sete anos é
consentido ter medo do escuro.
- Chegamos
garotinho, e aqui estão eles, eu já tinha falado a respeito de você, parece que
gostaram de ti.
Tito não
viu ninguém quando o louco apontou para os sinos.
- Ora, não
há ninguém ai senhor.
- Como não,
você é cego por um acaso menino engraxate? Aqui está quem queria te apresentar,
respondeu o louco.
- Senhor eu
não vejo ninguém, apenas os sinos.
- Você não
pode os ver, mas eu posso. Quero te apresentar meus amigos, Bobo e Barão Fino.
O menino
pensou que o louco por seus distúrbios criou amigos imaginários. Lógico.
- Eu tenho
também vários amigos imaginários senhor louco, porém você não acha que esses
que estão na sua imaginação podem lhe fazer mal mandando no senhor?
- É por que
você não os vê, eles estão sim aqui, são tímidos também e não fizeram um
movimento, mas agora que o ponteiro da catedral ira soar, eles tocarão os sinos.
De repente
os sinos começaram a badalar sozinhos, ninguém os tocava porque sozinhos soavam
e distribuíam os sons agonizantes que ecoavam por toda a cidade, Tito ficou
surpreso em perceber tal coisa incomum. O sol ia se pondo pelas seis horas e o
lugar ficou mais escuro que antes, e aos poucos a imagem de dois sujeitos
começava a aparecer badalando os sinos.
- Então são
esses seus amigos? Eles realmente existem, falou o engraxate surpreso.
- Sim,
existem, vai lá falar com eles.
O menino
engraxate se aproximou dos amigos do louco sem medo. Eram estranhos um pouco,
concentravam-se em continuar os badalos dos sinos e não davam importância a
Tito. Passou o ponteiro grande das seis horas e findaram com o barulho, ambos
olharam para o engraxate e um logo perguntou:
- Quanto
você cobra para engraxar meus sapatos? Muito prazer, seu amigo louco me chama
de Bobo, mas meu nome verdadeiro é...
- Mais que
atitude de insulto, interrompeu o outro sujeito que continuou repreendendo Bobo
- Que coisa abusiva, você não respeita mesmo o menino, ele mal te conhece e já
pede ao coitado para engraxar esses seus sapatos mofados, na realidade nem de
couro são seus calçados, muito prazer senhor, desculpe o abuso deste, seu amigo
louco me chama de Barão Fino.
Bobo lembrava
um bobo da corte com seu modo de se vestir ou de Arlequim ou Faustaff, com
arranjos coloridos na roupa, rosto pintado, seu sorriso demonstrava graça e
cativava pela sua expressão comediante. Barão Fino vestia-se como um homem
elegante, com seu terno fino, sapatos bem engraxados e de autovalor, seus
gestos eram de um lord, expressões de uma pessoa educada, aparentemente rica,
tudo isso, apesar da calvície.
- Ele não é
meu amigo, apenas o conheci e não sabia que havia mais loucos do que ele que
aparecem do nada, vou sair daqui porque estou tremendo de medo respondeu Tito
aos estranhos surpreso e assustado.
Quando o
menino saiu correndo as pressas, Bobo lhe impediu dizendo que se fosse embora
iria perder o jantar, realmente havia perto do sujeito uma cesta cheia de
frutas e petiscos os quais aguçaram a tentação de Tito em ficar ainda no lugar.
- Fique,
será um prazer jantar com mais um novo amigo, disse Bobo.
O
entusiasmo do louco estampava em seu rosto ao saber que o engraxate ficaria.
Bobo, Barão
Fino e o homem louco prepararam um jantar agradável, Tito percebeu que o lugar
foi ficando agradável quando os três amigos começavam a cozinhar e cantar uma
cantiga diferente sobre homens e pássaros, o que o engraxate ficou mais confuso
era que como as coisas de uma ora para outra mudaram no lugar, repentinamente
tudo fica iluminado, aparece um fogão de lenha antigo para Bobo preparar a
sopa, uma mesa grande com castiçais e velas juntamente paralelos aos pratos e
talheres na mesa organizados por Barão Fino e o louco varrendo e sorrindo, para
Tito, realmente aquilo poderia marcar a infância do pobre engraxate.
- Quer
saber como tudo isso aconteceu menino? Perguntou Barão Fino.
- Sim, me
responda, disse Tito.
- Já ouviu
falar da frase de William Shakespeare que diz - "Existem
mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."?
-
Não sei quem é esse senhor, mas o que tem haver com tudo isso?
-
Simplesmente menino não pergunte, faça da sua infância algo fantasioso e
sonhador como todas as outras crianças, quando você crescer será o tempo de
questionar o porquê e como aconteceu tudo isso.
Sem
nenhuma resposta, Tito não deu importância e continuou jantando. Logo após o
jantar, já estava com sua sede em querer saber sobre tudo aquilo.
-
Já sei, quer saber de tudo não é mesmo engraxate? Perguntou o louco.
-
Sim senhor, respondeu o menino.
-
Qual é seu nome engraxate? Perguntou o louco.
-
Tito senhor, mas pode também me chamar de O Engraxate da Praça.
-
Melhor Tito, você não engraxa a praça com certeza, deve fazer isso com os
senhores que lhe pagam não é mesmo?
-
Sim, porém me puseram esse apelido pelo motivo de eu não sair da praça, muitos
me dão gorjetas por cada par de sapatos que eu engraxo.
-
Você tem pais, perguntou Bobo?
-
Não senhor Bobo, nasci em um orfanato, depois fugi por que eu vi uma de nossas
mães baterem muito em outro órfão, hoje vivo na rua como engraxate, moro em uma
casa abandonada não muito longe daqui.
Bobo
começou a chorar de uma maneira engraçada e abraçava Tito sufocante sem o
menino poder respirar, queria apenas demonstrar sua fragilidade e pena pelo
engraxate. Barão Fino apenas observava e criticava em argumentos moralistas as
causas que levaram aquela criança à pobreza, era até interessante o que estava
dizendo, todavia o louco e o Bobo não estavam dando importância aos seus
questionamentos e sim observavam a demonstração de como engraxar sapatos que
Tito apresentava a ambos, o que deixou Barão Fino chateado e acarretando sua
pergunta nada agradável:
-
Louco, por que trouxe este menino aqui? Quem sabia só de nos era você, agora
esse menino também, será que ele é confiável.
-
Sou confiável sim senhor, respondeu Tito.
-
Como podes provar?
-
Senhor Barão, se todos souberem de suas existências, o senhor pode me mandar
matar e morro sabendo que trai vocês, eu estou aqui porque sou curioso, queria
saber com quem esse senhor conversava se era por acasos amigos imaginários de
sua loucura e também a causa da raiva de pombos que ele tanto tem. Eu sou muito
curioso, enfrento o medo e quero saber o que não sei.
Barão
Fino admirou a coragem do menino e pediu que Bobo explicasse as causas de todas
as suas curiosidades.
- Eu sou de
séculos, trabalhava em uma corte animando o rei com minhas graças e piadas,
gostavam muito de mim. Um dia eu estava no jardim do castelo quando uma velha
estranha se aproximou de mim, ela sorriu com seus dentes deteriorados, eu
perguntei quem era, mas ela não respondeu e apenas disse que as pessoas são
como pombos, contentam-se com o que jogam, mas nunca vão atrás de que comem
como as aves de rapina, eu apenas sorri, não comentei nada. A velha que parecia mais uma mendiga se
aproximou e pôs em minhas mãos um broche em formato de um pombo e falou que se
um dia eu presenciasse um rico ou um pobre, alguém qualquer enganando uma
pessoa que trabalhava honestamente, que eu pusesse o broche em uma peça sua de
roupa que esta pessoa mudaria completamente sua vida, a velha desapareceu pela
floresta sem deixar rastros.
- E então,
você pôs? Perguntou o engraxate a Bobo.
- Eu sabia
que havia muitos ladrões, malfeitores, até o próprio rei enganava os seus
súditos e seu povo, nunca existiu coragem em mim para por esse broche em roupas
de ninguém, coloquei em uma das minhas roupas para o objeto não perder, um dia
sem querer vesti uma de minhas fantasias para animar e distrair o rei de seus
problemas, mas infelizmente era esse traje que estava o broche, quando percebi
me lembrei do que a anciã falou, de repente sumi do lugar de onde estava e
apareci em um tempo futuro, na casa de pessoas estranhas com roupas diferentes
da minha época, percebi que estava sem roupa, como um mendigo, porém o broche
estava em minhas mãos.
- Então...
- Eu
continuo a história, interrompeu Barão Fino.
Barão Fino
não identificou seu verdadeiro nome ao menino Tito, mas apenas explicou sua
ligação com o hilário Bobo:
- Menino
Tito, eu vim de longe e de outra época diferente deste comediante, fato óbvio.
Conheci Bobo quando o encontrei no quarto de minha esposa tentando vestir algum
traje para se cobrir, furioso, achei que este ai fosse um ladrão, porém por
suas atitudes e modos de se comportar e falar fora de época notei que não
passava de um louco. Era de noite e o sanatório
estava fechado, mandei prende-lo em um quarto de hospedes que tinha em minha
mansão, não me importava com o que ele dizia ou tentava explicar, tampouco
queria ele perto de mim e minha esposa. Ao adormecer, meus criados foram
observar se algo o tal sujeito tinha trago consigo, enquanto ele dormia
profundamente, os criados revistaram e a única coisa que encontraram foi um
objeto dourado, bonito e com forma de um pássaro, uma de minhas serventes
guardou e me mostrou no dia seguinte, era bonito, mas eu não ficaria com algo
que pertencia a um louco, pensei no mais lógico, ele pode ter roubado o broche
de alguém, isso, vou, entregá-lo a policia
para que descubram de quem é o adorno. Certa hora percebi que aquele broche era
tão bonito que podia combinar comigo se eu o pusesse no meu terno para a visita
de um homem importante, pensando bem não daria para um louco algo tão bonito,
resolvi então ficar com o broche para demonstrar tamanho luxo.
-
Infelizmente não deu tão certo não é seu Barão Fino? Disse Bobo com um tom de
deboche.
- Claro que
não, por sua culpa seu desmiolado. Você conseguiu se soltar de onde te
trancaram antes de eu lhe mandar para a cadeia e quando você viu que eu ia
pondo o broche em meu terno resolveu se jogar em cima de mim para me impedir do
tal ato sem ter êxito e por isso aparecemos aqui nessa época de agora, eu
infelizmente sem roupas e este louco com seus trajes de bobo da corte medieval
que roubou de uma das minhas fantaisas, ainda bem que este outro que diz ser
louco conseguiu roupas bonitas a mim.
-
Esquecendo que eu roubei por uma boa causa? Disse o homem louco.
- Nossa!
Estou fascinado, será que o broche era mágico? Como será que vocês conseguirão
voltar pro lugar de vocês? Como também conheceram esse senhor que se diz louco?
Por que só aparecem na noite? Vocês odeiam pombos também? E tudo Tito
perguntava demasiadamente.
- Calma seu garoto com síndrome de curioso, uma coisa de cada vez,
respondeu o senhor Barão Fino.
- Eu respondo suas questões, disse o homem louco.
- Fale senhor porque não agüento de tanta curiosidade.
- Um dia eu estava entre as ruas pedindo esmola para comer alguma coisa,
não consegui, pois as pessoas já se acolhiam para se protegerem de uma
tempestade forte que estava se formando. Eu me abriguei nessa catedral para não
me molhar, estava no mesmo horário que você veio, o sol desapareceu devido às
nuvens, me acolhi perto da igreja enquanto a chuva caia forte e os únicos que
iluminavam esse lugar tenebroso eram os relâmpagos. Percebi ao me deitar vozes
que compartilhavam cochichos e ao mesmo tempo risadas, achei que realmente
estava já louco além de ser pobre, escutei com paciência os estrondos agudos
dos sinos soarem e percebi que estavam tocando sozinhos, foi ai então que esses
dois apareceram. Sim, fiquei com sensação de medo ao vê-los, porém depois
passou assim que começamos a conversar. Você viu coisas aparecerem e ficou
surpreso, isso aconteceu devido à maldição do broche trazer algo talvez de bom,
achamos que esse broche é amaldiçoado, no entanto ele pode trazer benefícios
quando desejamos algo que nos necessitamos como no caso era comida.
-
Diga-me então, vendo assim o senhor falar nem parece que é louco, por que se
finge de louco e detesta os pombos? Perguntou Tito.
- As
pessoas que não me entendem pequeno engraxate, acham eu louco, mas esses pombos
são a cópia idêntica delas, tirando o bico, as penas, o barulho os quais fazem,
são aves preguiçosas que preferem viver das migalhas que os outros vivem, sabe
por que estou falando isso?
- Não
senhor.
-
Estou falando isso pois já fui alguém que vivia da migalha dos outros, não
pense que sempre eu fui mendigo como sou agora menino, eu era rico, no entanto
vivia da migalha das pessoas que eu enganava. Eu era um excelente jogador de
cartas, sempre enganava também com quem eu iria competir. Enganava crianças,
jovens, adultos, velhos e não tinha coragem de me redimir. Sempre bem sucedido
como banqueiro, guardava meu dinheiro em um cofre na minha mansão para que
ninguém pudesse levar, eu era muito ambicioso e avarento.
- Como
o senhor virou pobre e por qual motivo não gosta de pombos?
-
Espere, ainda estou relatando! Certa noite uma velha idêntica a que esses dois
falam chegou comigo enquanto eu estava dormindo em meu leito, pediu para mim
duas moedas de centavos para comprar alguma coisa de comer, eu não dei
importância, achei que aquilo fosse um sonho, a velha mulher voltou a insistir
com a mesma pergunta balançando minha perna direita, foi quando despertei e me
escondi com medo dela achando que fosse um fantasma e pedi para sair. A velha
me olhou com um ódio e me disse que quando o sol nascesse minha vida mudaria
por causa da minha ambição e avareza, e só voltaria a ser como era se eu
fizesse um ato de generosidade com alguém pobre e inocente, ainda falou que no
futuro conheceria duas pessoas que precisariam de mim para voltar em suas
vidas. A anciã se foi repentinamente e a partir daquele momento comecei a ver
pombos em todo o lugar, e no rosto deles tinham faces de pessoas que conhecia
que praticavam desonestidade com outras, a situação foi piorando quando olhava
no rosto das aves e via minha própria face, cresceu então um ódio sobre mim
mesmo. Fiquei perturbado com aquilo a madrugada toda, pela manhã ao nascer do
sol quando finalmente fecho meus olhos para dormir, eu desperto como um varrido
de rua naquela praça, ao redor de pombos com caras de ladrões e cafajestes.
Essa maldição me persegue há anos. Mesmo voltando a minha mansão eu vi outra
família já morando no lugar, estavam muito felizes.
- O
senhor então odeia pombos porque vê seu rosto neles?
- Sim,
arrependo- me muito do que fiz, sei que um
dia fui rico e enganei até pobres e hoje pago pelos meus enganos, ninguém se
lembra de mim, acham que sou um louco, é como se eu vivesse outra realidade,
como gostaria de voltar ao tempo, arrepender-me e ajudar as pessoas que eu
enganei, mas não podemos voltar no passado, esse passado está me condenando
demais.
- Puxa
senhor que eu acho que não é louco! Fiquei triste agora pelo senhor, e vocês
Barão Fino e Bobo, merecem também isso? Por que tocam os sinos da catedral?
-
Ninguém se importa com o badalar dos sinos dessa catedral aqui nesta cidade,
por isso resolvemos em cada hora badalar, isso foi minha idéia, demorou muito
para o senhor Barão aqui aceitar, ele preferiria estar andando invisível pelas
ruas dessa cidade, eu não faria isto, um dia poderia anoitecer rapidamente e eu
aparecer assim do nada na frente dos demais, depois com um tempo seu Barão
resolveu me ajudar a fazer pelo menos esse ato de gentileza aos fieis da
catedral e a cidade, até hoje nunca ninguém questionou porque os sinos tocam
sozinhos sem ninguém para badala-los, explicou Bobo.
- Eu
sou um Barão que nunca enganei ninguém menino. Sempre fui honesto em todos os
meus negócios e justo com meus criados, não sei como estou nessa situação, foi
um mero acaso do destino, preferiria muito voltar ao meu tempo. Bobo segundo
ele também nunca enganou ninguém, simplesmente era um bobo da corte que
divertia a uma dinastia, fomos surpresos nesses quarenta anos viver aqui nesse
tempo sendo reconhecidos apenas por esse homem lunático ou não, jamais saberemos
até quando tal tormento ira terminar, dizia Barão Fino.
-
Senhor Barão Fino vamos pensar em um jeito de tudo isso terminar, talvez a
pessoa a qual desse o broche a Bobo foi à mesma que depois de muito tempo
apareceu ao senhor louco, pode ser que não foi à toa de vocês três se
encontraram agora, é preciso pensar em um modo de todos voltarem as suas vidas
como antes, senhor homem que não é louco, já fez uma generosidade com alguém
pobre e inocente? Perguntou o engraxate.
- Sim
é claro, com senhoras, na maioria das vezes e nem por isso minha vida voltou a
ser que nem antes.
Um
silêncio pairou no ar enquanto os quatro ficaram pensativos na situação que
parecia nunca poder mudar.
- Eu
acabei de ter uma idéia, disse o Bobo.
-
Diga, qual foi, perguntou Barão Fino.
- Tito
é uma criança, é claro, pobre, inocente, é esperto para conseguir dinheiro para
comida engraxando os sapatos dos homens que lhe dão gorjetas, mas não deixa de
ser um humano infantil. Aqui, na oportunidade que nos quatro estamos reunidos,
aproveitaríamos a presença do pequeno engraxate para através deste ser o agente
que possa quebrar a maldição, disse Bobo.
- Como
seria? Perguntou o louco.
-
Simplesmente senhor louco tudo começará por você. De todos os fatos mencionados
o senhor é o causador principal de tudo isso. O destino lhe concedeu nosso
encontro com você e por isso nossa missão de ensiná-lo a ser honesto e sem
amargura terminou, agora resta a ti manifestar a esta criança, quem sabe com
isso tudo termine.
O
senhor louco ficou pensativo ao que disse Bobo, depois se levantou e dirigiu-se
ao pequeno engraxate perguntando algo:
- O
que você gostaria Tito de ganhar de presente, fora comida?
-
Gostaria de ter um cãozinho de estimação, assim ele seria meu fiel companheiro
e aonde eu pudesse ir ele estaria comigo me protegendo e sendo meu fiel amigo.
- Não
é difícil conseguir um cão, eu vou conseguir um para você, apenas irei ao canil
e pegarei um pra você, qual raça você quer?
- Qualquer
um, mas tem que ser filhote e desde pequeno ir se acostumando comigo.
O louco que não era louco naquela mesma noite
foi ao canil tentar pegar um filhote. Passou por vários obstáculos até
finalmente conseguir chegar ao corredor dos cachorrinhos para adoção. Conseguiu
levar um cachorro bem pequenino, talvez um filhote de pequenez, não sabia bem.
Saiu às pressas com cachorros ferozes atrás e o zelador atirando com
espingarda.
Ao
chegar de volta cansado e nervoso, o senhor louco explicou ao menino que não
havia cães conforme queria, apenas conseguiu aquele pequenino, quem sabe aquele
pudesse transmitir felicidade ao Tito. Pela expressão descontente do engraxate,
todos notaram que o menino não se satisfez muito com o presente, mas agradeceu
ao senhor louco, mas não foi por esse motivo o qual levou o fim de toda aquela
situação, o engraxate deveria ter aceitado o presente de coração e tampouco por
simples consideração ao esforço do senhor louco, tristes, Bobo, Barão Fino e
louco ficaram sem esperança de não conseguirem o que queriam, não conseguiam
entender como se livrar daquilo, pois bondade praticavam, a lição já havia
surtido efeito nestes, o que faltaria para aquilo terminar?
Tito
estava gripado desde cedo, isto era notório, o tempo todo espirrava e todos já
haviam percebido, ainda não havia reclamado de qualquer sintoma do mal, pelo
menos até manifestar muita febre. O menino tremia e Bobo tentava acalmar o
mal-estar fazendo compressa na cabeça da criança ensopando um pano com água
morna. O que fazer? Já tarde da noite, um menino muito doente, tremendo, não
havia sequer um cobertor para aquecer o corpo de Tito, se não fizessem alguma
coisa talvez este não pudesse ver o amanhecer. Novamente a tristeza pairou no
lugar, o senhor louco percebeu que roubar um cão não foi algo certo de sua
parte, por isso aconteceu isso infelizmente ao pobre garotinho Tito, estava se
prejudicando por sua causa também.
- Tudo
que eu queria agora era um cobertor, para me aquecer, delirava o engraxate.
(CONTINUA ...)
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