domingo, 23 de agosto de 2015

Algum escritor me ajude a terminar de escrever este conto. Eu o iniciei em 2010 e desde lá ainda não finalizei o enredo, por favor, ficaria grato caso alguém entrasse em contato comigo.

O Louco e o Engraxate 

A praça estava cheia de pombos e pássaros atraídos pelos grãos de alpistes ou quaisquer que jogavam no chão, roupas de glamour naquele início de século XX enfeitavam o lugar com arquiteturas européias.
Senhoras simpáticas distribuíam pipocas e outras guloseimas para os pombos mais próximos a escada que subia para a catedral. Sempre era de costume observar a praça da enorme igreja rodeada por essas aves, porém sempre havia um sujeito que os espantava. Chateadas, as senhoras e crianças se afastavam, pois a única diversão dos finais de tarde eram os pombos famintos que aguardavam ansiosos a chegada das pessoas para se alimentarem dos alpistes que jogavam as aves.
Todos os dias um homem vinha e espantava os pássaros, acabava com a diversão de velhos e crianças, mas todos tinham o homem como um louco mesmo com suas características de mendigo, alguém anormal que simplesmente era como os outros varridos de rua. Os pássaros não podiam pousar final da tarde que o louco corria em direção a estes e espantava-os. Indignados, pessoas que se distraiam alimentando os pombos não visitaram mais o lugar. O louco era insuportável com sua teimosia em afugentar os pombos.
- Malditos pombos, não passam de pessoas folgadas, querem se saciar a custa dos piores que vocês, saiam daqui seus preguiçosos e vão viver do que vocês acharem e não do que derem a vocês. Dizia o louco.
Muitas pessoas não entendiam tal ação do sujeito louco.
- Aquele descarado perturbado mental continua espantando os bichinhos, quando ele vai parar com isso? Todo o dia ele espera o final da tarde quando estamos todos se distraindo com a alegria dos pombos, então ele vem e espanta os coitados com aquela vara que segura sempre pra agredir os pássaros. Gostaria que os guardas prendessem esse desmiolado ou o manicômio pudesse vir e tira-lo à camisa de força para as pessoas terem sossego alimentando os pombos. Dizia uma senhora furiosa. 
Todos os dias era sempre o mesmo ato. As pessoas se aproximavam da praça ou os que estavam na igreja se achegavam no lugar para apreciar as aves e o louco vinha para fazer os pombos voarem. Ninguém o impedia e sempre os seus dizeres eram os mesmos, porém, um menino de sete anos que fazia serviços de engraxate na praça observava dia-a-dia o homem louco que espantava os pássaros conversar sozinho antes de espantar os pombos. Ele se sentava a beira de uma árvore a qual ficava na lateral da praça e começava a rir e discutir com ninguém, coisas tipo – As pessoas acham que eu sou louco fazendo isso amigo, você quer mesmo que eu continue a passar por momentos tão humilhantes assim? Por que tenho que continuar? Percebi que não são tão ruins assim.
Tito conhecido como “O Engraxate da Praça”, não era medroso. Criado sendo menino de rua era acostumado a enfrentar os valentões que cruzavam por seu caminho, as tempestades fortes, as noites frias sem lar, fome e dentre outros eram enfrentados por uma criança que ganhava a vida engraxando sapatos de senhores que passavam pela praça da catedral. Era também muito curioso, enquanto seus amiguinhos de rua caçoavam e debochavam do louco que assustava os pombos ele pensava em qual motivo aquele homem seria louco, com quem será que ele conversava? Por que ele assustava os pombos? Um dia ele mataria sua curiosidade infantil perguntando para o tal louco.
Certa tarde quando as pessoas se ajuntavam para alimentar os pássaros novamente o louco se aproximou do lugar, mas agora se aproximava correndo com uma tocha acessa a fim de queimar as aves do local. Foi um desespero total. Pessoas corriam de um lado para o outro com medo de serem queimadas, gritos por todo lado, berros de crianças em carrinhos de bebe, senhoras levantando seus vestidos e saindo da confusão, poeira misturada com fumaça e Tito parado no meio da confusão apenas olhando para o louco que corria atrás dos pombos com uma tocha que nem fogo mais acendia.
Com coragem em meio a tanto tumulto Tito se aproximou do homem louco:
- Ei, ei, moço, eu não tenho medo do Senhor, pode dar atenção para mim? Disse Tito.
O louco o observou com certa ferocidade nos olhos e jogou a tocha que acendia. Com um gesto delicado o homem abaixou a cabeça e assentou-se no chão delicadamente, o menino percebendo que o louco já estava calmo ofereceu um pedaço de pão ao homem que por sua barriga encolhida e corpo magro demonstravam a fome que imperava.
- O senhor estava com fome mesmo, está devorando o pão sem mastigar, quer mais? Perguntou o engraxate.
- O homem não respondeu, apenas continuou com sua cabeça baixa e suas pernas cruzadas no chão. Tito não esperou mais e ousou perguntar:
- Por que o senhor faz essas coisas? Por que você odeia os pombos? Com quem conversa antes de vir à praça?
Continuou o louco no seu silêncio, Tito estava ansioso para saciar sua curiosidade e continuou a repetir suas perguntas, começou a balançar o ombro do louco e este não dizia nada, o silêncio era tudo que o menino continuava a escutar. Certo momento Tito balançou o braço do louco mais forte e neste impreciso momento o louco reage gritando:
- Por que...
- O menino sai correndo nervoso e o louco logo começa a rir e chama por Tito:
- Ei filho que isso, por que está correndo? Aproxime-se.
Andando devagar meio desconfiado e nervoso Tito foi se aproximando do louco.            
- Não tenha medo menino, venha, estou muito agradecido por você me dar comida, não serei tão injusto, admiro muito sua coragem, não é como os outros meninos, aproxime-se e falarei tudo o que quiser.
Tito se surpreendeu que o louco não agisse mais como alguém anormal, será que ele fingia?
- O senhor está normal agora, não é mais louco como antes, o que foi que aconteceu? Você se finge de louco ou está me confundindo?
- Oh menino curioso! Calma tudo no seu tempo, para início de conversa eu sou louco sim, assumo minha loucura, não sou normal garotinho, mas não faço mal a ninguém, quero dizer, somente aos pombos porque são asquerosos e repugnantes, não gosto deles, malditas aves, respondia o louco em tom reclamante ao falar dos pombos.
- Puxa! Como o senhor detesta pombos, não quero muito saber o motivo de não gostar deles, quero entender por que o senhor conversa sozinho? Eu queria saber isso, todos os loucos são assim?
O louco riu e se levantou do chão e disse:
- Se eu lhe contar um segredo você não diz a ninguém?
- Promessa de homem leal quer dizer de menino leal, respondeu Tito.
- Tudo bem menino, eu contarei a você. Quero lhe apresentar duas pessoas.
O garoto começou a perceber que o homem não tinha mais reação de louco e que mesmo este sendo do jeito que era, demonstrava segurança.
 A curiosidade do engraxate aumentava mais quando seguia o louco por levá-lo a quem iria lhe apresentar, percorreram toda a praça, subiram os enormes degraus da catedral, ao chegarem dentro da igreja, ainda subiram para a torre e nesta andança Tito já estava cansado de andar e perguntar quem eram as pessoas e o louco sempre dizendo – Você saberá.
Finalmente chegaram à torre escura e meio tenebrosa, os sinos eram grandes e enferrujados, teias de aranha e poeira cobriam o lugar, pombos não existiam somente os mortos que o louco matava, Tito observou ratos no canto, isso não lhe provocou medo, porém o lugar obscuro fazia o menino tremer, afinal, para alguém de sete anos é consentido ter medo do escuro.
- Chegamos garotinho, e aqui estão eles, eu já tinha falado a respeito de você, parece que gostaram de ti.
Tito não viu ninguém quando o louco apontou para os sinos.
- Ora, não há ninguém ai senhor.
- Como não, você é cego por um acaso menino engraxate? Aqui está quem queria te apresentar, respondeu o louco.
- Senhor eu não vejo ninguém, apenas os sinos.
- Você não pode os ver, mas eu posso. Quero te apresentar meus amigos, Bobo e Barão Fino.
O menino pensou que o louco por seus distúrbios criou amigos imaginários. Lógico.
- Eu tenho também vários amigos imaginários senhor louco, porém você não acha que esses que estão na sua imaginação podem lhe fazer mal mandando no senhor?
- É por que você não os vê, eles estão sim aqui, são tímidos também e não fizeram um movimento, mas agora que o ponteiro da catedral ira soar, eles tocarão os sinos.
De repente os sinos começaram a badalar sozinhos, ninguém os tocava porque sozinhos soavam e distribuíam os sons agonizantes que ecoavam por toda a cidade, Tito ficou surpreso em perceber tal coisa incomum. O sol ia se pondo pelas seis horas e o lugar ficou mais escuro que antes, e aos poucos a imagem de dois sujeitos começava a aparecer badalando os sinos.
- Então são esses seus amigos? Eles realmente existem, falou o engraxate surpreso.
- Sim, existem, vai lá falar com eles.
O menino engraxate se aproximou dos amigos do louco sem medo. Eram estranhos um pouco, concentravam-se em continuar os badalos dos sinos e não davam importância a Tito. Passou o ponteiro grande das seis horas e findaram com o barulho, ambos olharam para o engraxate e um logo perguntou:
- Quanto você cobra para engraxar meus sapatos? Muito prazer, seu amigo louco me chama de Bobo, mas meu nome verdadeiro é...
- Mais que atitude de insulto, interrompeu o outro sujeito que continuou repreendendo Bobo - Que coisa abusiva, você não respeita mesmo o menino, ele mal te conhece e já pede ao coitado para engraxar esses seus sapatos mofados, na realidade nem de couro são seus calçados, muito prazer senhor, desculpe o abuso deste, seu amigo louco me chama de Barão Fino.
Bobo lembrava um bobo da corte com seu modo de se vestir ou de Arlequim ou Faustaff, com arranjos coloridos na roupa, rosto pintado, seu sorriso demonstrava graça e cativava pela sua expressão comediante. Barão Fino vestia-se como um homem elegante, com seu terno fino, sapatos bem engraxados e de autovalor, seus gestos eram de um lord, expressões de uma pessoa educada, aparentemente rica, tudo isso, apesar da calvície.  
- Ele não é meu amigo, apenas o conheci e não sabia que havia mais loucos do que ele que aparecem do nada, vou sair daqui porque estou tremendo de medo respondeu Tito aos estranhos surpreso e assustado.
Quando o menino saiu correndo as pressas, Bobo lhe impediu dizendo que se fosse embora iria perder o jantar, realmente havia perto do sujeito uma cesta cheia de frutas e petiscos os quais aguçaram a tentação de Tito em ficar ainda no lugar.
- Fique, será um prazer jantar com mais um novo amigo, disse Bobo.
O entusiasmo do louco estampava em seu rosto ao saber que o engraxate ficaria.
Bobo, Barão Fino e o homem louco prepararam um jantar agradável, Tito percebeu que o lugar foi ficando agradável quando os três amigos começavam a cozinhar e cantar uma cantiga diferente sobre homens e pássaros, o que o engraxate ficou mais confuso era que como as coisas de uma ora para outra mudaram no lugar, repentinamente tudo fica iluminado, aparece um fogão de lenha antigo para Bobo preparar a sopa, uma mesa grande com castiçais e velas juntamente paralelos aos pratos e talheres na mesa organizados por Barão Fino e o louco varrendo e sorrindo, para Tito, realmente aquilo poderia marcar a infância do pobre engraxate. 
- Quer saber como tudo isso aconteceu menino? Perguntou Barão Fino.
- Sim, me responda, disse Tito.
- Já ouviu falar da frase de William Shakespeare que diz - "Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia."?
- Não sei quem é esse senhor, mas o que tem haver com tudo isso?
- Simplesmente menino não pergunte, faça da sua infância algo fantasioso e sonhador como todas as outras crianças, quando você crescer será o tempo de questionar o porquê e como aconteceu tudo isso.
Sem nenhuma resposta, Tito não deu importância e continuou jantando. Logo após o jantar, já estava com sua sede em querer saber sobre tudo aquilo.
- Já sei, quer saber de tudo não é mesmo engraxate? Perguntou o louco.
- Sim senhor, respondeu o menino.
- Qual é seu nome engraxate? Perguntou o louco.
- Tito senhor, mas pode também me chamar de O Engraxate da Praça.
- Melhor Tito, você não engraxa a praça com certeza, deve fazer isso com os senhores que lhe pagam não é mesmo?
- Sim, porém me puseram esse apelido pelo motivo de eu não sair da praça, muitos me dão gorjetas por cada par de sapatos que eu engraxo.
- Você tem pais, perguntou Bobo?
- Não senhor Bobo, nasci em um orfanato, depois fugi por que eu vi uma de nossas mães baterem muito em outro órfão, hoje vivo na rua como engraxate, moro em uma casa abandonada não muito longe daqui.
Bobo começou a chorar de uma maneira engraçada e abraçava Tito sufocante sem o menino poder respirar, queria apenas demonstrar sua fragilidade e pena pelo engraxate. Barão Fino apenas observava e criticava em argumentos moralistas as causas que levaram aquela criança à pobreza, era até interessante o que estava dizendo, todavia o louco e o Bobo não estavam dando importância aos seus questionamentos e sim observavam a demonstração de como engraxar sapatos que Tito apresentava a ambos, o que deixou Barão Fino chateado e acarretando sua pergunta nada agradável:
- Louco, por que trouxe este menino aqui? Quem sabia só de nos era você, agora esse menino também, será que ele é confiável.
- Sou confiável sim senhor, respondeu Tito.
- Como podes provar?
- Senhor Barão, se todos souberem de suas existências, o senhor pode me mandar matar e morro sabendo que trai vocês, eu estou aqui porque sou curioso, queria saber com quem esse senhor conversava se era por acasos amigos imaginários de sua loucura e também a causa da raiva de pombos que ele tanto tem. Eu sou muito curioso, enfrento o medo e quero saber o que não sei.
Barão Fino admirou a coragem do menino e pediu que Bobo explicasse as causas de todas as suas curiosidades.
- Eu sou de séculos, trabalhava em uma corte animando o rei com minhas graças e piadas, gostavam muito de mim. Um dia eu estava no jardim do castelo quando uma velha estranha se aproximou de mim, ela sorriu com seus dentes deteriorados, eu perguntei quem era, mas ela não respondeu e apenas disse que as pessoas são como pombos, contentam-se com o que jogam, mas nunca vão atrás de que comem como as aves de rapina, eu apenas sorri, não comentei nada.  A velha que parecia mais uma mendiga se aproximou e pôs em minhas mãos um broche em formato de um pombo e falou que se um dia eu presenciasse um rico ou um pobre, alguém qualquer enganando uma pessoa que trabalhava honestamente, que eu pusesse o broche em uma peça sua de roupa que esta pessoa mudaria completamente sua vida, a velha desapareceu pela floresta sem deixar rastros.
- E então, você pôs? Perguntou o engraxate a Bobo.
- Eu sabia que havia muitos ladrões, malfeitores, até o próprio rei enganava os seus súditos e seu povo, nunca existiu coragem em mim para por esse broche em roupas de ninguém, coloquei em uma das minhas roupas para o objeto não perder, um dia sem querer vesti uma de minhas fantasias para animar e distrair o rei de seus problemas, mas infelizmente era esse traje que estava o broche, quando percebi me lembrei do que a anciã falou, de repente sumi do lugar de onde estava e apareci em um tempo futuro, na casa de pessoas estranhas com roupas diferentes da minha época, percebi que estava sem roupa, como um mendigo, porém o broche estava em minhas mãos.
- Então...
- Eu continuo a história, interrompeu Barão Fino.
Barão Fino não identificou seu verdadeiro nome ao menino Tito, mas apenas explicou sua ligação com o hilário Bobo:
- Menino Tito, eu vim de longe e de outra época diferente deste comediante, fato óbvio. Conheci Bobo quando o encontrei no quarto de minha esposa tentando vestir algum traje para se cobrir, furioso, achei que este ai fosse um ladrão, porém por suas atitudes e modos de se comportar e falar fora de época notei que não passava de um louco. Era de noite e o sanatório estava fechado, mandei prende-lo em um quarto de hospedes que tinha em minha mansão, não me importava com o que ele dizia ou tentava explicar, tampouco queria ele perto de mim e minha esposa. Ao adormecer, meus criados foram observar se algo o tal sujeito tinha trago consigo, enquanto ele dormia profundamente, os criados revistaram e a única coisa que encontraram foi um objeto dourado, bonito e com forma de um pássaro, uma de minhas serventes guardou e me mostrou no dia seguinte, era bonito, mas eu não ficaria com algo que pertencia a um louco, pensei no mais lógico, ele pode ter roubado o broche de alguém, isso, vou, entregá-lo a policia para que descubram de quem é o adorno. Certa hora percebi que aquele broche era tão bonito que podia combinar comigo se eu o pusesse no meu terno para a visita de um homem importante, pensando bem não daria para um louco algo tão bonito, resolvi então ficar com o broche para demonstrar tamanho luxo.
- Infelizmente não deu tão certo não é seu Barão Fino? Disse Bobo com um tom de deboche.
- Claro que não, por sua culpa seu desmiolado. Você conseguiu se soltar de onde te trancaram antes de eu lhe mandar para a cadeia e quando você viu que eu ia pondo o broche em meu terno resolveu se jogar em cima de mim para me impedir do tal ato sem ter êxito e por isso aparecemos aqui nessa época de agora, eu infelizmente sem roupas e este louco com seus trajes de bobo da corte medieval que roubou de uma das minhas fantaisas, ainda bem que este outro que diz ser louco conseguiu roupas bonitas a mim.
- Esquecendo que eu roubei por uma boa causa? Disse o homem louco.
- Nossa! Estou fascinado, será que o broche era mágico? Como será que vocês conseguirão voltar pro lugar de vocês? Como também conheceram esse senhor que se diz louco? Por que só aparecem na noite? Vocês odeiam pombos também? E tudo Tito perguntava demasiadamente.
              - Calma seu garoto com síndrome de curioso, uma coisa de cada vez, respondeu o senhor Barão Fino.
            - Eu respondo suas questões, disse o homem louco.
            - Fale senhor porque não agüento de tanta curiosidade.
            - Um dia eu estava entre as ruas pedindo esmola para comer alguma coisa, não consegui, pois as pessoas já se acolhiam para se protegerem de uma tempestade forte que estava se formando. Eu me abriguei nessa catedral para não me molhar, estava no mesmo horário que você veio, o sol desapareceu devido às nuvens, me acolhi perto da igreja enquanto a chuva caia forte e os únicos que iluminavam esse lugar tenebroso eram os relâmpagos. Percebi ao me deitar vozes que compartilhavam cochichos e ao mesmo tempo risadas, achei que realmente estava já louco além de ser pobre, escutei com paciência os estrondos agudos dos sinos soarem e percebi que estavam tocando sozinhos, foi ai então que esses dois apareceram. Sim, fiquei com sensação de medo ao vê-los, porém depois passou assim que começamos a conversar. Você viu coisas aparecerem e ficou surpreso, isso aconteceu devido à maldição do broche trazer algo talvez de bom, achamos que esse broche é amaldiçoado, no entanto ele pode trazer benefícios quando desejamos algo que nos necessitamos como no caso era comida.
- Diga-me então, vendo assim o senhor falar nem parece que é louco, por que se finge de louco e detesta os pombos? Perguntou Tito.
- As pessoas que não me entendem pequeno engraxate, acham eu louco, mas esses pombos são a cópia idêntica delas, tirando o bico, as penas, o barulho os quais fazem, são aves preguiçosas que preferem viver das migalhas que os outros vivem, sabe por que estou falando isso?
- Não senhor.
- Estou falando isso pois já fui alguém que vivia da migalha dos outros, não pense que sempre eu fui mendigo como sou agora menino, eu era rico, no entanto vivia da migalha das pessoas que eu enganava. Eu era um excelente jogador de cartas, sempre enganava também com quem eu iria competir. Enganava crianças, jovens, adultos, velhos e não tinha coragem de me redimir. Sempre bem sucedido como banqueiro, guardava meu dinheiro em um cofre na minha mansão para que ninguém pudesse levar, eu era muito ambicioso e avarento.
- Como o senhor virou pobre e por qual motivo não gosta de pombos?
- Espere, ainda estou relatando! Certa noite uma velha idêntica a que esses dois falam chegou comigo enquanto eu estava dormindo em meu leito, pediu para mim duas moedas de centavos para comprar alguma coisa de comer, eu não dei importância, achei que aquilo fosse um sonho, a velha mulher voltou a insistir com a mesma pergunta balançando minha perna direita, foi quando despertei e me escondi com medo dela achando que fosse um fantasma e pedi para sair. A velha me olhou com um ódio e me disse que quando o sol nascesse minha vida mudaria por causa da minha ambição e avareza, e só voltaria a ser como era se eu fizesse um ato de generosidade com alguém pobre e inocente, ainda falou que no futuro conheceria duas pessoas que precisariam de mim para voltar em suas vidas. A anciã se foi repentinamente e a partir daquele momento comecei a ver pombos em todo o lugar, e no rosto deles tinham faces de pessoas que conhecia que praticavam desonestidade com outras, a situação foi piorando quando olhava no rosto das aves e via minha própria face, cresceu então um ódio sobre mim mesmo. Fiquei perturbado com aquilo a madrugada toda, pela manhã ao nascer do sol quando finalmente fecho meus olhos para dormir, eu desperto como um varrido de rua naquela praça, ao redor de pombos com caras de ladrões e cafajestes. Essa maldição me persegue há anos. Mesmo voltando a minha mansão eu vi outra família já morando no lugar, estavam muito felizes.
- O senhor então odeia pombos porque vê seu rosto neles?
- Sim, arrependo- me muito do que fiz, sei  que um dia fui rico e enganei até pobres e hoje pago pelos meus enganos, ninguém se lembra de mim, acham que sou um louco, é como se eu vivesse outra realidade, como gostaria de voltar ao tempo, arrepender-me e ajudar as pessoas que eu enganei, mas não podemos voltar no passado, esse passado está me condenando demais.
- Puxa senhor que eu acho que não é louco! Fiquei triste agora pelo senhor, e vocês Barão Fino e Bobo, merecem também isso? Por que tocam os sinos da catedral?
- Ninguém se importa com o badalar dos sinos dessa catedral aqui nesta cidade, por isso resolvemos em cada hora badalar, isso foi minha idéia, demorou muito para o senhor Barão aqui aceitar, ele preferiria estar andando invisível pelas ruas dessa cidade, eu não faria isto, um dia poderia anoitecer rapidamente e eu aparecer assim do nada na frente dos demais, depois com um tempo seu Barão resolveu me ajudar a fazer pelo menos esse ato de gentileza aos fieis da catedral e a cidade, até hoje nunca ninguém questionou porque os sinos tocam sozinhos sem ninguém para badala-los, explicou Bobo.
- Eu sou um Barão que nunca enganei ninguém menino. Sempre fui honesto em todos os meus negócios e justo com meus criados, não sei como estou nessa situação, foi um mero acaso do destino, preferiria muito voltar ao meu tempo. Bobo segundo ele também nunca enganou ninguém, simplesmente era um bobo da corte que divertia a uma dinastia, fomos surpresos nesses quarenta anos viver aqui nesse tempo sendo reconhecidos apenas por esse homem lunático ou não, jamais saberemos até quando tal tormento ira terminar, dizia Barão Fino.
- Senhor Barão Fino vamos pensar em um jeito de tudo isso terminar, talvez a pessoa a qual desse o broche a Bobo foi à mesma que depois de muito tempo apareceu ao senhor louco, pode ser que não foi à toa de vocês três se encontraram agora, é preciso pensar em um modo de todos voltarem as suas vidas como antes, senhor homem que não é louco, já fez uma generosidade com alguém pobre e inocente? Perguntou o engraxate.
- Sim é claro, com senhoras, na maioria das vezes e nem por isso minha vida voltou a ser que nem antes.
Um silêncio pairou no ar enquanto os quatro ficaram pensativos na situação que parecia nunca poder mudar.
- Eu acabei de ter uma idéia, disse o Bobo.
- Diga, qual foi, perguntou Barão Fino.
- Tito é uma criança, é claro, pobre, inocente, é esperto para conseguir dinheiro para comida engraxando os sapatos dos homens que lhe dão gorjetas, mas não deixa de ser um humano infantil. Aqui, na oportunidade que nos quatro estamos reunidos, aproveitaríamos a presença do pequeno engraxate para através deste ser o agente que possa quebrar a maldição, disse Bobo.
- Como seria? Perguntou o louco.
- Simplesmente senhor louco tudo começará por você. De todos os fatos mencionados o senhor é o causador principal de tudo isso. O destino lhe concedeu nosso encontro com você e por isso nossa missão de ensiná-lo a ser honesto e sem amargura terminou, agora resta a ti manifestar a esta criança, quem sabe com isso tudo termine.
O senhor louco ficou pensativo ao que disse Bobo, depois se levantou e dirigiu-se ao pequeno engraxate perguntando algo:
- O que você gostaria Tito de ganhar de presente, fora comida?
- Gostaria de ter um cãozinho de estimação, assim ele seria meu fiel companheiro e aonde eu pudesse ir ele estaria comigo me protegendo e sendo meu fiel amigo.
- Não é difícil conseguir um cão, eu vou conseguir um para você, apenas irei ao canil e pegarei um pra você, qual raça você quer?
- Qualquer um, mas tem que ser filhote e desde pequeno ir se acostumando comigo.
 O louco que não era louco naquela mesma noite foi ao canil tentar pegar um filhote. Passou por vários obstáculos até finalmente conseguir chegar ao corredor dos cachorrinhos para adoção. Conseguiu levar um cachorro bem pequenino, talvez um filhote de pequenez, não sabia bem. Saiu às pressas com cachorros ferozes atrás e o zelador atirando com espingarda.
Ao chegar de volta cansado e nervoso, o senhor louco explicou ao menino que não havia cães conforme queria, apenas conseguiu aquele pequenino, quem sabe aquele pudesse transmitir felicidade ao Tito. Pela expressão descontente do engraxate, todos notaram que o menino não se satisfez muito com o presente, mas agradeceu ao senhor louco, mas não foi por esse motivo o qual levou o fim de toda aquela situação, o engraxate deveria ter aceitado o presente de coração e tampouco por simples consideração ao esforço do senhor louco, tristes, Bobo, Barão Fino e louco ficaram sem esperança de não conseguirem o que queriam, não conseguiam entender como se livrar daquilo, pois bondade praticavam, a lição já havia surtido efeito nestes, o que faltaria para aquilo terminar?
Tito estava gripado desde cedo, isto era notório, o tempo todo espirrava e todos já haviam percebido, ainda não havia reclamado de qualquer sintoma do mal, pelo menos até manifestar muita febre. O menino tremia e Bobo tentava acalmar o mal-estar fazendo compressa na cabeça da criança ensopando um pano com água morna. O que fazer? Já tarde da noite, um menino muito doente, tremendo, não havia sequer um cobertor para aquecer o corpo de Tito, se não fizessem alguma coisa talvez este não pudesse ver o amanhecer. Novamente a tristeza pairou no lugar, o senhor louco percebeu que roubar um cão não foi algo certo de sua parte, por isso aconteceu isso infelizmente ao pobre garotinho Tito, estava se prejudicando por sua causa também.
- Tudo que eu queria agora era um cobertor, para me aquecer, delirava o engraxate.
        
(CONTINUA ...)

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Este foi meu primeiro conto infantil, escrevi aos 21 anos.


A vingança dos animais.


As árvores se balançavam conforme o vento penetrava na imensa floresta verde, o amanhecer e o esplendor do dia deixavam o lugar mais belo. Começava a festa dos bichos pela manhã a seguir.
Os pássaros voavam para lá e para cá com seus melodiosos cantos, as araras faziam barulho em cima das palmeiras para comer as frutinhas maduras, os macacos empurravam uns aos outros para descobrir quem era o que pulava mais alto com seus saltos e agilidades que ofendiam a pobre preguiça sonolenta. As capivaras esperavam os ouriços caírem das castanheiras e assim que caíssem elas roeriam até conseguirem tirar as castanhas. Garças procuravam peixes sobre aquela imensidão de água que mais parecia um mar e não um rio. Os botos brincavam no rio dando cambalhotas até atingirem a superfície e assim voltarem e os peixes e mais peixes pulavam dos igapós para comerem insetos que passavam no lugar. Queixadas corriam de costume pela floresta, porém não se sabia o porquê disso. Não se esquecendo das pequenas formigas saúvas que com seu exército tentavam dominar os chãos do mato. Todos os animais da floresta abraçavam o novo dia, até a onça pintada, o mais temido deles não demonstrava ataque, queria apenas beber água na margem do rio temendo a velha cobra sucuri que ficava embaixo d’água a espreita de algum bicho para sua refeição.
O dia mesmo não era qualquer, em um lugar da floresta vários animais se reuniram para resolver algo muito importante.
- Obrigado por terem vindo. Estamos aqui para resolver algo sério que está prejudicando muitos aqui, falou o Gavião-Real de um tronco de árvore com uma altura visível a todos.
- Eu vim de longe, mas cheguei, disse o Gambá suado e cansado.
 O fedor do Gambá era insuportável e animais que não podiam tapar as narinas enterravam a cara no chão. A Ariranha disse em tom de deboche:
- A Mucura está mais do que fedorenta hoje, está o fedor em pessoa.
- É muito bom o respeito dona Ariranha, todos sabem que eu não gosto que me chamem deste nome, disse o Gambá.
Isto gerou uma discussão e novamente o Gavião pediu a todos que se calassem. Em silêncio e com os maus odores no ar o Gavião-Real continuou.
- Estamos aqui para acabar com as traquinagens do senhor Macaco- Prego. Nos últimos dias ele passou dos limites pregando peças em quase todos os animais aqui da floresta. Precisamos por limites neste primata sem vergonha que anda por aí aprontando conosco... 
- É verdade, interrompeu o Jacaré-Açu. Ele aprontou comigo, falou que tinha um petisco bem saboroso para me dar no lago, pediu então que eu abrisse a boca e fechasse os olhos, ao fazer isto ele jogou uma enorme pedra e quando tentei mastigar sem saber eu quebrei meus dentes. Agora estou banguela sem poder comer e todos os animais riem de mim.
- Não foi somente com o senhor seu Jacaré, ele arranjou não sei como tinta para pintar as Araras-Vermelhas de preto e não se sabe como ele apagou as pintas da onça. Enterrou o velho Peixe-Boi que quase não se vê por aí em um banco de areia para o coitado não sair e emagrecer, ele amarrou a Sucuri na árvore em um nó enquanto ela dormia. O Tatu e o velho Tracajá correram como calangos porque o Macaco assustou-os com uma espingarda, às ingênuas Pacas e Capivaras travaram suas bocas devido à peste lhes oferecer uma fruta travosa, sem contar no que ele ainda apronta mais pela floresta.  
- Foi muita maldade o que ele fez comigo também. Um dia ele apertou meu bico grande e saiu correndo. Certa vez aceitei frutas que dizia serem doces, quando comi amargou todo meu bico e fiquei furioso com isso ao descobrir ser andiroba o que provei. Será que ele acha que sou que nem as Antas? Perguntava o Tucano para ofender indiretamente as Antas que não entendiam a conversa.             
- É um absurdo! Exclamou uma Coruja. Vamos dar um jeito nesse bicho antes que ele faça algo pior. Eu posso pensar em uma boa possibilidade de manter o Macaco-Prego fora dos nossos alcances.
- Não, respondeu a dona Ariranha. Vamos jogar esse Macaco no lago das Piranhas e então ele vai ver o que é bom.
- Nada disso, é muita maldade. Vamos jogá-lo para o Pirarucu engolir ele, é menos sofrido, respondeu a Coruja.
- O Pirarucu não come Macacos, que eu saiba, respondeu um dos botos na água.
- Lembrando que é somente uma lição, não é para acabar com o compadre Prego, se intrometeu a Preguiça.
Assim o dia passou com os animais na discussão em qual seria a lição para dar no Macaco-Prego a fim de acabar com suas traquinagens. De repente a Onça cochicha algo sem ninguém ouvir com sua comadre Jaguatirica e depois comentam silenciosamente com discrição aos outros animais. Ouvindo a ideia, todos concordaram e combinou-se com o plano que daria fim as macaquices.
No outro dia o Macaco-Prego jogava caroços de açaí na velha Anta que procurava frutos os quais caiam no chão.
- Um dia far-te-ão pior Macaco-Prego, teu dia vai chegar, dizia a velha Anta cansada.
Sem dar atenção o Macaco continuava a jogar os caroços na Anta até que foi interrompido por um pássaro – O Galo da Serra.
- Bom dia senhor Macaco-Prego, trago uma mensagem para o senhor.
- Diga Cabeça Estranha, debochou o Macaco do pássaro. O que foi? Perguntou o Macaco-Prego.
- As Araras-Vermelhas estão pedindo o seu comparecimento no Bananal das Bananas Compridas quando o sol estiver no meio do dia, compareça senhor, elas querem presentear-lhe com coisa boa.
- Que bom, respondeu o Macaco-Prego, elas não ficaram tão chateadas com as brincadeirinhas que fiz. Eu vou sim, ainda mais em bananal, ou essas araras são ingênuas demais ou então querem aprontar uma comigo, pensava o Macaco.
A hora certa em que o pássaro disse ao Macaco chegou e este foi a se encontrar com as aves. Ao chegar ao bananal foi surpreendido por não ver ninguém no local, avistou apenas as Araras que se aproximavam pelo vôo em direção ao Bananal.
- Olá senhor Macaco-Prego, quem bom ter vindo. Aproxime-se de nos Araras-Escuras por sua causa porque temos a lhe oferecer várias bananas-pacovans deliciosas.
O Macaco aceitou desconfiado e observou o cacho das bananas com atenção para não cair em um golpe. Não percebendo nada de incomum, comeu de uma por uma as bananas com atenção sem desconfiar de nada.
- Gostou seu Macaco-Prego? Perguntou as Araras.
- Sim e quero mais, apesar de estar já cheio, quero mais bananas.
- As Araras deram mais um cacho de banana para o Macaco e rapidamente devorou-as com muito desejo. O Macaco não sabia que algo era diferente naquelas bananas, quem comesse as frutas daquele bananal as quais eram dos índios ficaria com mais vontade de comê-las. O Macaco estava no oitavo cacho e mesmo sem espaço na barriga ainda pedia, porém neste momento a Onça sem pintas se aproximava do Macaco com o intuito de pega-lo. Percebendo o perigo, o Macaco-Prego tentava correr, mas não conseguia de tão cheio que estava.       
- Por favor dona Onça, aposto que você não gostaria de comer uma caça tão inocente e ao mesmo tempo fácil de pegar como este inocente agora. Faço de tudo para deixar os outros felizes do meu modo, eu sou alguém arrependido por minhas brincadeiras, eu quero que um ninho de cabas caia agora em cima da minha cabeça se eu estiver a mentir, falava o Macaco temeroso e com a mesma expressão de querer as cabas a qual sempre dizia. 
De repente um ninho de cabas caiu sobre a cabeça do Macaco deixando-o dolorido e histérico pelo enxame, a Coruja com o Gavião-Real arremessou o ninho no coitado. A Correr das cabas, o Macaco mergulhou no rio, mas saiu depressa ao ver o Peixe-Boi que tinha enterrado livre e furioso com muita vontade de esmagá-lo. Surpreso com todos os bichos a sua volta, apenas riu se desculpando. Não sendo o suficiente as desculpas, foi arremessado com frutas, gravetos, sementes. O Macaco-Prego saiu afugentado e com uma vontade de jamais voltar na floresta.
Passaram-se os dias e todos os animais se animaram pelo plano ter dado certo. Muitos procuravam ainda o tal Macaco-Prego, mas nunca o encontraram.
Hoje, esse Macaco-Prego é velho e conta esta sua historia aos seus companheiros do zoológico sempre com a afirmação final – Agora vocês sabem por que eu prefiro ficar nesta jaula a voltar para a mata. Por isso não reclamo desta vida.        
                                                                            (FIM)
Joedh

quinta-feira, 20 de agosto de 2015


Aqui vai um dos meus primeiros contos. Eu o escrevi aos 16 anos embaixo de uma árvore no meu Ensino Médio:

"Entre Morte, Vida e Consciência."
Em certo lugar existia uma ponte que acabara de ser construída, esta ligava uma cidade à outra. Esta ponte passava por um rio extenso de água escura sendo notável perceber quão profundo as colunas da ponte atravessavam aquelas águas negras e profundas.
Uma noite perto da hora zero quando muitos já se recolhiam em suas camas e os carros pouco trafegavam, uma figura masculina se aproximava de tal ponte sem aparentar qualquer entusiasmo.
Ele caminhava com seu tênis baixo, vestido com suas calças jeans velhas e sua blusa preta de mangas compridas. Seu cabelo era meio que comprido e ondulado, suas mãos eram trêmulas e frias, seu rosto denunciava tristeza e dor, magreza e palidez eram notórias em seu corpo.
Cada vez mais atravessava a ponte alta em cima do profundo rio, um jovem que se aproximava na lateral da ponte com o intuito de cair e morrer afogado. Suas lágrimas eram intensas e caiam sobre o rio como gotas de chuva. Muito forte o que sentia não superou mais e inclinou-se bem perto do final para pular, mas naquele momento alguém se aproximava e chamou a atenção do sujeito que se matara.
Uma pessoa estranha, aparentemente com o corpo de uma mulher com um manto negro, encapuzada e com os braços cruzados. Ageu, o jovem sem demora a se suicidar, assustou-se ao ver tamanha coisa estranha se aproximar e antes de pular da ponte se assusta pela presença da pessoa impedido assim de fazer sua pretensão. Perguntou muito nervoso quem seria a senhora estranha e o que fazia naquela hora não propícia?
- Eu sou aquela mais temida por todos os viventes, a indesejada, a qual separa pessoas queridas uma das outras, a que vem sem hora, a única, eu sou a Morte.
- Será que estou louco? Perguntou Ageu a si apavorado e histérico. O jovem não se lembrava de ter bebido, ou tomado qualquer droga. Não poderia ser verdade, a Morte parecer uma mulher ou seria brincadeira de alguém? Ageu perguntou novamente:
- Quem é você? Estou falando sério, você se aproxima de mim e eu pulo. Falou o rapaz nervoso.
- Não se preocupe pularemos juntos, eu levarei sua alma e somente Deus saberá para onde ela irá. Você ansiava por mim Ageu, agora aqui faço presença, respondia a Morte seriamente.
- Minha nossa! Eu não me lembro de antes chamar você Morte? Isso se você for quem diz ser.
- Ora Ageu, como é tolo. Antes de vir aqui você já me atraia, e aquela ocasião a qual quebrou os espelhos? Ansiava-me.
Ageu era bastante complexado, tímido e se sentia incapaz de ser melhor e preparado. Um jovem que gostaria de confessar bons atos e virtudes os quais poderiam mudar sua vida e lhe fazerem feliz, mas temia a opinião e o modo que cada um pensava sobre ele. Escrever seria uma terapia para seu livramento da realidade lamentável em todos os vinte e sete anos vividos. Cansado de ser uma pessoa diferente aos seus pais e não se aceitando como era e tampouco sua vida humilde, começou a esmurrar o espelho quebrando-o em cacos e manchando este de sangue despertando aspiração a morte. Houve vários momentos em que pensou em tirar sua vida atraindo então à famosa Morte.  
- Vamos logo rapaz, há muitos ainda os quais preciso levar, dê-me sua mão e cairemos juntos, faça juízo daquilo que você afirmava realmente ser, dizia-te que sua vida nunca prestou, não deveria ter nascido e dar trabalho a sua mãe, é um inútil na sociedade, por isto, é melhor morrer para que seus sofrimentos cessem.
Ageu decidido deu as mãos a Morte e quando se inclinavam para cair, alguém por trás grita:
- Não faça isso!
          
Morte pediu ao rapaz para não dar atenção, mas Ageu observou que era uma moça. Uma jovem bonita com um lindo vestido branco e uma tiara reluzente.
- Eu sou a Vida, Ageu, aliás, sua Vida. Você vai permitir a Ageu acabar comigo? Perguntou Vida em desespero.
O rapaz olhou para a Morte e para Vida e correu assustado do lugar, mas a Vida o alcançou e pediu para ele se acalmar e apenas ouvi-la.
- Querido Ageu, pense nos momentos desde quando você estava se iniciando. Houve seu nascimento, depois a infância e seguiu adolescência. É um privilégio de você existir Ageu. As pessoas não valorizam os simples momentos que passam no mundo, você venceu a corrida do início para existir, aliás, todos os que existem venceram. Estar aqui não é fácil. Conviver e ter o melhor nesse mundo é dificultoso, mas vale à pena ceder valor a mim. Esta sociedade manipula os humanos através de hipocrisias que culminam com o fracasso psicológico. Infelizmente você não se aceita como é, pelas ordens naturais das coisas não se pode mudar eu (Vida) com a Morte, mas podemos mudar a historia de uma vida com uma simples decisão progressiva, pense bem Ageu, quer mesmo destruir seus sonhos por esses motivos os quais te magoam? Motivos depressivos? Não é lutador o suficiente para vencer?
Vida ainda falou persuadindo Ageu a não se suicidar.
A Morte o puxava pelos braços, nisto gerou um puxa-puxa, Morte e Vida puxavam-no de um lado para o outro até ele gritar:
- Chega! Nem a Morte nem a Vida decidem por mim, estou mais tranquilo e preciso ouvir minha consciência, espero que tudo isso seja um sonho e quando abrir meus olhos tomara não enxergar vocês duas, falou Ageu com os olhos fechados e mãos no rosto.
Repentinamente, um rapaz idêntico a Ageu até com a mesma aparência e roupa aparece dizendo:
- Estou aqui, cumprimentou-se o rapaz – Eu sou sua Consciência.
O jovem não se assustava mais, depois de Morte e Vida brigarem por sua causa por que se assustaria com a Consciência igualzinha a sua imagem? Por isso perguntou logo:
- O que diz a respeito da situação Consciência? O que faço?
- Confesse, diga a todos o que sabe fazer, o que sempre lhe fez sentir melhor. Não é por que sua mãe queria a você algo que sempre ela quis que pudesse fazer-te feliz para sempre. Confesse Ageu. O que sempre gostou de fazer? Fale.
 - Gosto de escrever poemas, contos, historias, mas meus pais nunca pareceram valorizar isto, mamãe sonhava com que eu exercesse a advocacia, eu nunca quis.
- Você escreveu tantas coisas lindas, romances e poemas que fariam de você alguém importante, todavia por sua timidez e o complexo importuno fragilizaram sua imagem, jogou no lixo não somente o que escrevia, mas seu talento. Por quê? Por causa de sua fraqueza em deixar as pessoas fazerem de você aquilo que permitiu. Valorize sua vida, pelo menos dê a ela mais uma chance, não é fácil deixar de ser o mesmo, porém se alcança de pouco em pouco o melhor senhor Ageu.
A Consciência lhe aconselhava, Vida e Morte as ouviam. Ageu se surpreendia em descobrir que sua Consciência guardava verdades que ele nunca pensou, realmente, era como se outra pessoa lhe apoiasse a viver. Uma paz sentiu dentro do seu coração e tomou com isto à decisão certa.
Agradeceu Consciência por iluminar sua razão e dirigiu-se a Morte para dizer que não queria mais vê-la por longos anos. Enfurecida, a Morte empurrou o rapaz agarrando com força ao precipício sem dar tempo para Vida poder ajudá-lo. Naquele momento, Consciência observou uma longa lista embaixo da manga direita da túnica da Morte e para concluir o que esta deduzia, puxou a lista com os nomes de pessoas para morrer e mostrou a Morte que aquele a quem ela queria levar não era a pessoa certa.
- O nome dele é Ageu Eduardo Moriz, está escrito na lista, Agenor Edvaldo Moss, você errou dessa vez Morte.
Muito irritada e cheia de murmúrios e reclamações, Morte se afastou do lugar derrotada, mas proferindo sua volta um dia para finalmente levar aquele a quem pensava ser.
Agradecido, Ageu deu um abraço a Vida confessando seu amor agora mais a ela do que a Morte. Prometeu mudar e jamais permitir seu fim por acasos sem importância. Vida se afastou feliz e segura de sua existência.
A Consciência disse para Ageu que poderia contar com ela para qualquer decisão, bastasse em ter calma e ouvi-la antes de praticar qualquer ato. Consciência se despediu e desapareceu. Ageu pensou no que muitos falam:
- Antes de falar ou agir, pense, ou seja, use sua Consciência.
Em seguida o rapaz saiu da ponte e retornou a sua casa. Tomou um banho e se deitou pensando em toda a experiência não natural.
O rapaz tomou a decisão de revelar seu dom de escrever, mesmo seu pai e sua mãe não lhe apoiando ou em recusar o filho poeta e escritor que tinham, começou a ficar conhecido por suas poesias e obras que publicava enfrentando assim a timidez e a baixa estima que prendia Ageu de ser alguém feliz. A partir de então acordava e dizia bom dia ao seu reflexo no espelho todos os dias valorizando-se com amor a sua vida. Compartilhou a muitos suas experiências e vontades que lhe proporcionaram excelente autoestima na carreira literária. Casou-se com uma bela jovem moça constituindo família. Teve um casal de filhos e viveu muito feliz. Relatou através de muitas das suas poesias e romances não tão conhecidas, o amor que cada um pode ter pela vida mesmo em momentos difíceis e a questão sobre os importunos no cotidiano que podem ser vencidos por motivação e os talentos que cada pessoa tem em si. 
Ageu Eduardo Moriz nunca confessou a ninguém, mesmo se acreditassem ou não que em uma noite decidiu se suicidar ficando literalmente entre a Morte, a Vida e a sua Consciência.              

(FIM)

                                                                                              Joedh